Relatos de terras africanas
Por Thomas Harres
baterista e percussionista
Voltando de terras africanas, sinto que cada vez mais devemos retornar as nossas raízes ancestrais e evitar que a essa globalização reducionista acabe com a nossa maior riqueza: a cultura.
Nesse último mês naveguei pelas áridas ilhas de Cabo Verde, onde a chuva é escassa e as chances mais escassas ainda. Tive a oportunidade de conhecer um povo que se identifica muito com o Brasil e que se chama de "Brasilin" carinhosamente.
A cada vez que falava "brasileiro" com um caboverdeano eles abriam o maior sorriso e enchiam o peito pra falar o quanto eles amam o Brasil. Percebi nesse momento o quanto nós (principalmente eu) não damos o valor a essa terra que há secúlos foi povoada à sangue e raça africana. Que desde os tempos remotos barcos carregados de "escravos" amontoados uns sobre os outros desembarcavam na Bahia de todos os santos trazendo seu suor e sua força a nossa terra.
O objetivo da minha viajem foi realizar um projeto de construção de instrumentos musicais com lixo e material reaproveitado, o projeto Ciclo Natural, onde iríamos a Cabo Verde fazer oficinas para jovens e adultos para ensiná-los a construir os seus próprios instrumentos e criar oportunidades para fortalecer a cultura musical local, como também despertar a conscientização ecológica do reaproveitamento do lixo. Nosso projeto foi premiado pelo edital de intercâmbio cultural promovido pelo Ministério de Cultura do Brasil que tem como foco esse tipo de iniciativa.
Realizamos diversas oficinas por lá, desde de crianças até adultos, mas o mais importante é que em todos os lugares em que tivemos, sem exceção, nos receberam de olhos e ouvidos bem abertos, sempre atentos e curiosos a cada som, ruído, idéia e novidade que traziamos.
Por volta do final de julho estivemos numa vila no interior da ilha de santiago chamada Porto Madeira, uma comunidade que está sendo patrocinada pelo centro cultural francês de cabo verde. Essa comunidade vive às custas da sua produção agrícola, onde plantam milho, feijão(vários tipos), mandioca e amendoim, vendem para a cidade onde trocam pro outros produtos para a sobrevivência.
Um dia ajudando uma familia a plantar amendoim, perguntei como eles faziam a divisão do trabalho e descobri que cada familia tem direito ao que conseguir plantar, e assim quando chega a época da chuva do amendoim todos acordam às 5h da manhã pra trabalhar e plantam até não dar mais. Percebi que por toda a terra tinha esterco de bode e de vaca espalhado de maneira bem homogênea de modo a fertilizar o solo.
O engraçado é que quando me ofereci para ajudar não levaram muita fé, mas depois de alguns canteiros começaram a acreditar que eu também trabalhava na terra aqui pelo Brasil. Até comentei com eles do Biosocioregional daqui, mas não entenderam muito bem o que era. No fim me oferecem um prato de peixe com feijão que estava delicioso!
Nós fomos a convite da Mizá, que é a organizadora de um projeto de turismo ecológico nessa vila onde ela cresceu órfã e sem a menor perspectiva de vida, ela vem fazendo um trabalho de resgate dessa aldeia com investimentos internacionais e com a ajuda de artistas plásticos do mundo todo.
Passamos três dias de trabalho intenso com a criançada de lá e com pessoas de outras aldeias e vilas próximas que foram convidadas a participar das oficinas. Lá construimos vários Pau-Chuva, um Xinelofone, chucalhos, Flautas-Pan etc.
Depois de muito suor e trabalho fomos abençoados no último dia com uma chuva revigorante que encheu nossos corações de esperança e de mais um ano de colheita e fartura para aquele povo que batalha diariamente contra a fome e a sede!
Volto com o sentimento de que ainda não terminei o trabalho começado, que apenas plantei a semente em terras africanas e que espero colher o mais breve possível!!!!
Africa Unite!
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