Fotos de Tainá Del Negri


Educação Popular em Plantas Medicinais, Agroecologia e Cultura Livre

Em defesa do Conhecimento Livre

ANA: Carta do encontro da Articulação Nacional de Agroecologia

Se defendemos a agroecologia e a biodiversidade; se combatemos a monocultura e o monopólio... por que continuamos 100% reféns da Microsoft? Em defesa do conhecimento livre, comecemos por combater o monopólio da Microsoft em nossas entidades. O II ENA debateu e deliberou: “A promoção e construção do conhecimento agroecológico pressupõe também a democratização dos meios de disseminação do conhecimento, inclusive dos recursos de informática. O sistema de comunicação difusionista predominante no atual modelo de desenvolvimento rural é insensível à diversidade de identidades e expressões culturais na medida em que está estruturado de forma vertical para a disseminação de valores e pacotes tecnológicos padronizados.” (Carta Política do II ENA)

Para fortalecer o Software Livre nos movimentos e organizações que compõem a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), o GT Informação está propondo alguns passos para diminuirmos, gradativamente, a dependência em relação ao monopólio da Microsoft.

1) Decidir, coletivamente, pela migração para o Software Livre – fazer agroecologia e promover a liberdade do conhecimento é mais que uma tecnologia, é uma opção de vida. Faça uma conversa em sua entidade sob o ponto de vista político da proposta (se quiser, pode usar o texto anexo). Tem muitos outros textos na internet, é só procurar. Você pode, também, baixar o documentário “revolution_os”, que está legendado em português neste endereço: ftp://ftp.uwolni.net/pub/filmy/dlugie/revolution_os.avi

2) OpenOffice – no Brasil chama­se BROffice – se você está inseguro para fazer a migração completa do sistema operacional, livrando­se de uma única vez da droga Microsoft, gaste – ou ganhe – apenas 30 minutos e instale o office: texto, planilha, desenho, apresentação, banco de dados... Procure no endereço http://www.openoffice.org.br/download, baixe para sua máquina a versão para Windows e instale. Mais explicações? Tem tudo nesse endereço.

3) Sistema Operacional – se agora, depois do primeiro e segundo passos, o medo já for menor, então dê um viva à liberdade e livre­se do sistema operacional da Microsoft. Atualmente, as versões mais apropriadas para usuários iniciantes, segundo a experiência de algumas entidades que estão usando há mais de 5 anos, são: biglinux, kurumin, Ubuntu. Estas e outras você encontra no endereço http://superdownloads.uol.com.br/linux. Existem manuais em muitos lugares; você pode começar procurando em http://www.guiadohardware.net.

4) Navegador de internet e gerenciador de email – viche, isso é muito fácil, tem dezenas à disposição, é só procurar o que melhor se adapta a sua realidade: Mozzila Firefox, Kmail....

5) Ihhh!!! esse negócio de agroecologia!!! ­ Já ouviu isso? Então é melhor não dar ouvidos aos “entendidos” de informática, muitos dirão que não é possível. Nessa hora, lembre­se dos “entendidos” do pacote tecnológico do agronegócio. Eles são irmãos, não sabem falar outra coisa. É um saco! No endereço http://www.estudiolivre.org há várias sugestões de softwares para produção de mídias – áudio, vídeo, editoração gráfica.

6) Socializar as produções em Software Livre – outra idéia é construirmos um banco de dados com os softwares produzidos pelas entidades da ANA, registrá­los como domínio público e disponibilizá­los. A EMBRAPA já tem um trabalho nesse sentido, poderá nos ajudar.

O Software Livre, social e culturalmente, é visto e anunciado, pelos tecnicistas e defensores do livre mercado, como 'tênis' fora de moda, tecnologia não tida como de ponta e tantas outras coisas que não estão entre os interesses e comportamentos mais aceitos pela atual sociedade de consumo. Assim acontece com a agroecologia, com a semente crioula, com a pequena agroindústria cooperativa, com os remédios homeopáticos e fitoterápicos...

Sob o ponto de vista educacional, o fortalecimento do Software Livre enfrenta os mesmos desafios que qualquer outra possibilidade de mudança política, econômica, cultural e social. Somos produto de um modelo tradicional de educação autoritária, centrada na figura do pai, do professor, do padre, do doutor, dos meios de comunicação: dos que sabem e que se julgam os responsáveis de repassar seus conhecimentos para os que não sabem. Recebemos aquilo que outros determinam ser importante para nossas vidas e assim somos preparados para reproduzir sem refletir sobre nossos atos repetitivos. Não somos desafiados a entender causa e efeito, como as coisas são feitas e funcionam, os porquês de cada ação que fazemos. Somos apenas treinados a repetir ações e comandos sem nos darmos conta como e porque as nossas ações resultam nisto ou naquilo.

Na informática, o alcance dessa maneira de ver e conceber a vida é muito maior que em outros campos do conhecimento, pois lidamos com maior grau de abstração da realidade. Se não aprendermos, minimamente, a sua lógica de funcionamento, o que está por trás da máquina, de cada componente, de cada comando, facilmente nos perdemos e não sabemos como lidar com ela. A forma tradicional de lidar com o conhecimento cria dependência, principal característica da sociedade de consumo capitalista. As pessoas treinadas a apenas repetir perdem a capacidade criativa e de viver com autonomia, preferem a segurança da dependência e da submissão à liberdade de poder sempre recriar a realidade.

Como em qualquer campo do conhecimento e da vida, na informática, a superação da dependência dos modelos únicos está relacionada à capacidade de reagir permanentemente diante das novas situações, de uma nova realidade. Se a estrutura de pensamento, construída nos indivíduos, está preparada para reagir positivamente diante de novas situações e realidades, será sempre possível encontrar novas soluções para as novas situações.

A possibilidade de melhor administrar as dificuldades do dia­a­dia está relacionada à capacidade de ver a realidade em permanente movimento, entendendo que nada está pronto, nada está acabado, e sempre é possível encontrar outra resposta para um mesmo problema. O Software Livre – assim como a agroecologia, a saúde natural, uma alimentação saudável – depende dessa nova postura, desse novo modo de encarar a vida.

Os vacinados e contaminados pelo neo­liberalismo – e todos nós temos um pouco disso – migram para o Software Livre quando descobrem suas vantagens econômicas, mas não são capazes de ver nele seu potencial fortalecedor e construtor de uma nova forma de ver e conceber a vida e o desenvolvimento.

O Software Livre tem maior aceitação, mesmo diante das dificuldades de adaptação, junto às organizações e pessoas que já estão envolvidas em processos de luta, transformação e superação do atual modelo de desenvolvimento capitalista. O espírito de liberdade que mobiliza os amantes do Software Livre ultrapassa os limites da informática e se estende para outras áreas do conhecimento, fortalecendo a luta pela superação do conceito de propriedade intelectual e possibilitando o conhecimento compartilhado e colocado em comum na perspectiva de melhorar a vida e não apenas voltado aos interesses econômicos de corporações sedentas por lucros.

Isso, na verdade, representa uma poderosa força na construção de uma nova cultura que valoriza a cooperação como forma de construção do conhecimento e de busca de soluções para os problemas da atualidade. A importância do uso do “Software” Livre está relacionada à autonomia possível e desejável, até por uma questão de segurança e soberania. O que representa, para o Brasil, o monopólio da “Microsoft”, onde mais de 90% dos usuários de informática são totalmente dependentes e reféns dela? Isso é tão ou mais preocupante que o monopólio das sementes, das biotecnologias, dos alimentos ou de qualquer outro setor.

Lutar pela democratização e liberdade do código fonte na informática tem o mesmo significado político que a luta pela democratização e liberdade das sementes na agricultura, ou das descobertas na medicina, na biotecnologia, ou em qualquer outra área do conhecimento.

Fonte: Midia Independente

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