Fotos de Tainá Del Negri


Educação Popular em Plantas Medicinais, Agroecologia e Cultura Livre

Pesquisa Histórica

Contam os mais velhos como Seu Jair, que Seu Delson contava que artefatos indígenas haviam sido encontrados por ele. Segundo o caro Miudinho, eram machadinhas amoladas e pontas lascadas que ele mesmo em sua meninice nas beiras d´agua perto da casa de Seu Jorge, havia também descoberto. Livros contam que houve nesse vale do rio Aldeia Velha, um importante aldeamento indígena. Honoraih, grande difusor dos conhecimentos sobre esse passado indígena contou que essa aldeia se chamava Sacra Família de Ipuca. Nela índios Guarulhos eram catequizados por padres, tendo ocupado também outros aldeamentos da região norte do estado.

Ipuca seria em tupi, água podre, ou seja, os alagadiços característicos dessa região. Pestes espalharam os índios pelos sertões de Bananeiras, Toca da Onça, Tenah... Quando os europeus chegaram encontraram ainda alguns moradores e o nome Aldeia Velha se consolidou. Existem três livros contando essa história, só que cada um tem uma versão diferente, só os documentos poderão solucionar essas questões.

A maioria dos atuais moradores de Aldeia Velha são descendentes de famílias alemãs, suíças, portuguesas, negras e também dos antigos moradores neobrasileiros[1] que permaceram das primeiras ocupações.

Os imigrantes que chegaram pela serra trouxeram muitos usos e costumes e construíram moinhos, engenhos e fazendas. Dessa época antiga ficaram histórias sobre a Mãe do Ouro, assombrações e causos como do dia em que a Dona Sinhá foi visitar a irmã Dona Inaiá, da guerra dos ciganos, do primeiro caminhão que entrou em Aldeia...

Dessa época as poucas casas que ficaram não estão seguras.  Como a antiga padaria que foi recentemente derrubada, casas como a pensão de Dona Cotinha, o casario velho, o antigo Barroco que já foi o Correio e a casa da Dona Sinhá e hoje é uma loja de material de construções não são protegidos por nenhuma lei do patrimônio histórico e artístico ou pelo menos que algum morador tenha conhecimento.

Uma antiga festa que também deixou saudade foi a Grande Festa da Padroeira Sant´anna. Essa era principal comemoração da cidade, em que os moradores das roças desciam e todos se encontravam. Com a luz elétrica e as barracas de bebidas a festa se descaracterizou e se inviabilizou. Mas as antigas festas eram bonitas, com palmeiras de palmito Jussara (Euterpe edulis) enfeitando a rua, bandeirinhas e barracas de bambu e folha de Pindoba.

Os bailes eram em casas de famílias, com apenas um sanfoneiro e os assoalhos de madeira faziam o sapateado ficar mais

vistoso. Eram tocadas valsas, xotes e a esperada quadrilha, que fechava a festa. O café era servido com broas de milho e todos dançavam com todos, pais, filhos, tios e vizinhos. Pessoas de diferentes idades também dançavam e os pares iam se trocando e os namoros se formando.

O leilão da festa de Sant´anna era o ponto alto das comemorações da santa, quando bois, galinhas, porcos e cachaças satíricas eram doados e disputados ferrenhamente. Com o dinheiro arrecadado a Igreja católica pôde ser reformada, foi construída a cantina e o clube, hoje fechado.

O povo de antigamente se juntava sempre, além dos bailes, nas rezas, nas fogueiras e nas brincadeiras. Seu Marquinho Tostes, grande incentivador das brincadeiras aldeenses, lembra com carinho das crianças e adultos sentados na porta da igreja brincando de gurufa: “Gurufa passou por aqui, passou por ali, manjou Piau!  - Piau não manja! – Quem manja! – Perna de moça! E por aí o etnoconhecimento[2] era passado através de jogos e brincadeiras.

Antigamente se fazia muita farinha em Aldeia, hoje apenas Seu Alcides mantém essa produção. Aos domingos a rua ficava cheia de pessoas que vinham das serras para vender, comprar e trocar a produção das roças. Os armazéns do Seu Mario Manduca e do Seu Onório Valadão eram pontos de encontro assim como as igrejas, que ficavam cheias de fiéis.

Segundo Seu Milton, pai de Gaúcho e Piti, Aldeia tinha farmácia, cartório, padaria e ferraria. Ele contou que o primeiro casamento civil do Brasil foi feito em Aldeia, por Seu Maneco da Pedra, que inclusive foi preso por causa disso e os noivos seriam os pais de Vino Schumacker. Nessa aldeia antiga, existiam muitos caçadores como Seu Eduardo Basílio, seu filho Leí, Seu Eduardo Neto, avô de Mesaí, Seu Onório Valadão e outros. Eram grandes conhecedores das matas e de seus mistérios, dormiam nas tocas como a Casa da Pedra e a Serra Grande.

São os moradores da Aldeia que fazem ela ser o que é. E suas matas, rios e cachoeiras fazem parte da família. Muitas pessoas contam que o rio Aldeia Velha e o rio Quartéis, nome dado pela presença de acampamentos militares, eram rios com mais água. Quem sabe se as histórias que Seu Delson contava das canoas, não são mesmo verdade. Hoje, o curso dos rios é definido por retroescavadeiras e o plantio da mata ciliar[3] já virou outra lenda local.

Nas matas que sobreviveram às décadas de cultivo do café, da banana e do gado, Seu Antonio Schimit ainda encontra muita Copaíba para fazer óleo medicinal e Seu Emi conta que na mata atrás da sua casa tem muito Vinhático, que pode ser reconhecido por ter as folhas mais claras que o resto da mata.

Muitos moradores também cultivam em seus quintais muitas plantas medicinais. Argeu à exemplo de seu pai e sua mãe, nossa querida Dona Anice possuem Saião, Guaco e Capim Cidreira. Dona Zeni tem poejo, sua irmã igualmente admirada Tia Linda tem hortelã, Seu Irinho, que cuida da nossa horta de medicinais, tem Caxalau, Artemísia e Confrei. Seu Plínio e sua irmã lá no alto perto da Serra Grande, são um tesouro medicinal, tem quase de tudo no seu quintal!

Tem os plantadores de árvores também: Seu Zé, que com sua incrível força de trabalhar diz: - “Quem planta, colhe.” E ele colhe mesmo as frutas das várias árvores frutíferas que produz. Nosso Argeu, que além de medicinal, espalha sementes, mudas e conhecimento pela Aldeia. É NATUREZA !!! Tem o Lequinho que sempre vai conversar com seu pé de Ipê Branco, ao lado da igreja, afinal as plantas também precisam de atenção e carinho. Tem o Neilton, irmão do Bambu, que produz muitas mudas de Ipê de várias cores, e o Thiago Bambu que além de conhecido artesão, também planta os Ipês do Neilton na beira dos rios. Seu Manoel também produz e cuida de muitas mudas, inclusive tirando fotos de seu Ipê rosa que retrata a cada florada. Tem também Seu Olívio Osório, que antes de partir doou um terreno para se fazer uma praça pra vila e também plantou as árvores da entrada da Aldeia. E por fim, o Tião, que há um tempão, trás sementes e mudas pra Aldeia, iniciando um importante trabalho de conscientização ambiental. Trabalho também que Luis Nelson desenvolve na sua reserva e que Seu Delson é um símbolo, por ter conservado a matinha em volta de sua casa. Tem as crianças da escola que fizeram uma linda gincana no dia da árvore e trouxeram muitas mudas para o viveiro agroflorestal da escola e além desses tem todos os plantadores que plantam em seus jardins, quintais e hortas. Afinal, Aldeia é uma vila de plantadores!


[1] Neobrasileiros – nome que se dá aos moradores do período colonial, descendentes da miscigenação entre índios, europeus e negros e que formaram a população rural do Brasil.

[2] Etnoconhecimento – Forma de conhecimento que valoriza os saberes da população local como forma de interpretar o mundo.

[3] Mata ciliar – nome que se dá à mata que fica na beira dos rios e córregos e que possui importante papel no controle da erosão dos rios e propagação da biodiversidade.

Seja bem-vindo(a)!

Somos eternos aprendizes. Este é nosso maior prazer e do qual nunca nos cansamos: aprender, aprender sempre!

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